Bio.
MÁRIO LAGINHA e JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

03 Outubro, 21h30

Mário Laginha – piano
João Paulo Esteves da Silva – piano

Apesar de Mário Laginha e João Paulo Esteves da Silva serem dois dos principais pianistas de jazz europeus da sua geração, tomá-los primariamente como pianistas de jazz tende a obscurecer a amplitude das suas respectivas obras. Devemos encará-los, acima de tudo, como compositores-pianistas da grande tradição ocidental, anterior ao advento (assaz recente) da dicotomia composição/interpretação que hoje caracteriza muita da música dita “clássica”, e figuras maiores daquilo a que poderíamos chamar “nova música portuguesa”. Tratando-se o jazz de uma das formas de expressão criativa mais ricas e relevantes do século XX, e sendo ambos compositores-pianistas abertos às mais variadas influências, é natural que tal forma de expressão seja central à música que fazem, não só em termos estéticos como ao nível do seu processo criativo. Este último aspecto faz deles, entre outras coisas, pianistas de jazz, mas isso não implica que seja essa a forma mais adequada de os caracterizar. (Se Schumann ou Chopin fossem hoje vivos, seriam muito provavelmente “pianistas de jazz”.)

Um olhar sobre as suas respectivas discografias revela, não obstante diferenças significativas (até porque se tratam de artistas sui generis), uma série de paralelos interessantes: ambos se estrearam em nome próprio em meados dos anos 90, com discos definidores do tipo de sonoridade a que alguns chamariam “jazz português”; ambos exploraram com êxito o formato do clássico trio de piano, contrabaixo e bateria, além de se aventurarem a solo; ambos desenvolveram colaborações frutíferas com dois notáveis saxofonistas, o inglês Julian Argüelles (Laginha) e o norte-americano Peter Epstein (Esteves da Silva), que se adequaram como poucos à sua música, e também com dois virtuosos da guitarra portuguesa investidos na emancipação deste instrumento, Ricardo Rocha (Esteves da Silva) e Miguel Amaral (Laginha); e, mais recentemente, ambos têm colaborado com dois dos principais fadistas contemporâneos, Camané (Laginha) e Ricardo Ribeiro (Esteves da Silva).

Ora, foi justamente ao lado destes dois últimos, no âmbito de um espectáculo intitulado “Duas Vozes, Quatro Mãos”, que voltaram recentemente a partilhar o palco, algo que não acontecia há mais de duas décadas, desde o tempo em que co-lideraram o (ainda inédito) grupo de câmara Almas e Danças. Tal reencontro não terá sido acidental e eis que se apresentam agora em duo: dois pianos que, embora não certamente gémeos, diríamos irmãos, talvez filhos de Keith Jarrett, nascidos em Portugal.

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